• Ma. Viviane Rodrigues

VIDA DE FOTÓGRAFA NO SÉCULO XXI + UM EXPERIMENTO IDIOMÁTICO


O que a vida e a fotografia tem em comum?

Na minha perspectiva: pouco.

A fotografia se produz por escolhas, quase nada - espontâneas - a partir de cenários que se constroem no imaginário ou à frente ( e nos entre-lugares). Ela se realiza a partir de uma série de opções possíveis e individuais e nasce através do lúbrico triângulo da exposição da película/CCD: o ISO, o diafragma e o obturador - que são responsáveis pela proporção de luz que a câmera pode capturar em um determinado momento.

Imagens: Viviane Rodrigues

É importante dizer ainda que, cada um dos personagens possui a própria faceta na leitura da composição da luz naquele segundo de manifestação que você quer captar... Sendo assim, tudo isso está a disposição da ação criativa da fotógrafa (sim, mesmo no fotojornalismo, onde deve imperar a ética da melhor autenticidade do ato/fato).

Uma profissional da fotografia diz a câmera, através das suas escolhas, como quer a imagem: pelo uso do white balance; nas escolha do tamanho da imagem; na extensão usada para captar; no possível ajuste dióptrico; na composição; no enquadramento; no uso do primeiro plano, do segundo; na escolha da iluminação no estúdio, através das referências, do repertório, do entrelaçamento de ideias, das mestiçagens do que já viu ... ... ...

Imagens: Viviane Rodrigues

Isto tudo, no entanto, vai depender se você está nesta vida de captadora de imagens como funcionária ou fotógrafa. O filósofo tcheco que se tornou brasileiro, Vilém Flusser, no livro A Filosofa da Caixa Preta, é quem diferencia a funcionária do aparelho (da câmera), daquela que pode ser denominada como fotógrafa.

A funcionária aceita os limites e a repetição do aparelho, enquanto a fotógrafa “manipula o aparelho, apalpa, olha para dentro e através dele, a fim de descobrir sempre novas potencialidades”, (FLUSSER, 2002, p.42). É como uma caçadora "que não se movimenta em pradaria aberta, mas na floresta densa da cultura” (FLUSSER, 2002, p.29).

As opções manifestas - subreptícias - em uma imagem são, então, relatos de ação e de escolha.

Imagem: Viviane Rodrigues

Se a fotojornalista de guerra, se a fotógrafa de rua, se a fotodocumentadora ou qualquer profissional recém-chegada ao campo, não sabe qual roteiro vai se desenrolar naquele dia, tem, ainda assim,opções técnicas possíveis que traduzem expressões objetivas e estéticas genéricas para produzir uma imagem: no sol a pino ou no lusco-fusco da tarde; em preto e branco ou com cores vivas (ou chapadas?).

Imagens: Viviane Rodrigues

(E aqui não estou falando do uso do "segundo obturador", como nomeia José Luis Brea, ou seja, a pós-edição - o Photoshop e o Lightroom - enfim, a produção na pós-fotografia. Falo sim, das opções da câmera fotográfica digital: este multiprocessador.

Eu, por exemplo, passei da fotografia analógica e do trabalho em laboratório para o jogo digital e a conclusão óbvia que tirei disso, a de que as noções no uso técnico/sensível/ético da câmera e da imagem, da criação fotográfica, aumentam com a experiência de Vida e com a reflexão sobre o tema. Para mim, a fotografia não se resume a uma experiência de controle, mas as alternativas geram objetividade e certeza.

Não temos controle sobre (quase) nada -coisa nenhuma-titica-patavina-na Vida.

Você opta. Aqui e ali. Sem muita certeza. Tateando. Eventualmente ganhando. Aprendendo (a perder).

A gente opta, dentro da realidade que se pinta e impõem para cada uma de nós em meio as nuances da vida – que pode ser sombria e monocromática ou Matissiana e oportuna – enquanto respiramos,

dia

após

dia.

Imagens: Viviane Rodrigues

Ou seja, para umas é mais fácil. Para outras mais difícil.

Às vezes é em uma esquina; no trânsito; no ponto de ônibus; na poltrona confortável da primeira classe; a caminho do encontro com @ namorad@: que a Vida exerce a sua imprevisibilidade.

Porque tudo pode acontecer. De feliz e/ou de doloroso.

Sem que você tenha qualquer chance/alternativa/oportunidade.

Apenas é.Foi.

Claro, que escondemos esta verdade - a de que não temos controle sobre bulhufas, brisa, zero - sob uma densa nuvem de reiterações diárias, porque convenientemente tentamos ancorar a Vida em nossas expectativas, reincidindo na cotidiana repetição que nos faz sentir confortáveis, mesmo quando deveríamos estar indignadas.

Pode o "destino" se manifestar também na soma ( ou ausência) das opções que a mulher pode fazer com a Vida? Pode. Bem como, preste atenção: também pode ser que não.

Porque você e eu sabemos, que coisas positivas e vibrantes acontecem a pessoas merecedoras, e também as "tralhas", a seres com poucas virtudes humanas básicas; assim como coisas negativas e trágicas, acontecem com gente desumana e desprezível, bem como, a humanas dignas e inocentes. Sem mencionar todas as zonas grisés neste espectro de possibilidades entre bem e mal.

Porque você, quem quer que seja; ou ela, como quer que viva: pode programar, optar, escolher, porque de repente, vem a Vida e

..kkkkkkkkkk... ou TCHAN!

A Vida ...dança como Isabela Duncan e Nijinski; se atira como atleta de le parkour; seduz como Marilyn, se exprime como Angela Davis;

se manifesta como tsunami.

Naquela oferta de emprego maravilhosa.

Naquela oportunidade única.

Naquela notícia inimaginável.

Na .

Já a fotografia é, "apenas", exigente e demanda lealdade... ... É nela que a vida pode ser perfeita – ou não - e espelhar a dedicação, o estudo, a humildade e a paixão que a profissional de fotografia deve cultivar. Na fotografia se exerce a predileção possível.

Agora, a Vida... A Vida, ela acontece sozinha depois que a realidade se impõe. Ela se desenrola. Ela é leal somente a própria imprevisibilidade. É inesperada, eventualmente inadequada, inconveniente e inoportuna. Também providencial. ;)

A Vida não se controla...

Nem ela, nem o frizz dos cabelos ;) .

Relaxe.

Mas preste atenção e lembre: a visão só se aclara quando você olhar para dentro do coração. Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, alvorece (Carl Jung).

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(Sentiu alguma diferença no texto? Ao invés do masculino genérico, usei o feminino genérico. Percebem o estranhamento ao protagonismo feminino? Como é assumir/perder esse papel no idioma e o que isso diz e faz ...?)

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Alguns conceitos (Iso, obturador, etc,) citados:

https://falandodefoto.com.br/iso-fotografia/

https://falandodefoto.com.br/obturador-da-camera-fotografica/

https://falandodefoto.com.br/balanco-de-branco-e-temperatura-de-cor-na-fotografia/

Artigos acadêmicos que lembrei escrevendo:

http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/discursosfotograficos/article/viewFile/14187/pdf_6

http://www.iar.unicamp.br/disciplinas/ap858/AXILA/pagarlindomachado.html

Artigo José Luis Brea: https://issuu.com/arteeducadora/docs/docs15

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