• Ma. Viviane Rodrigues

"A JORNADA DA HEROÍNA": OUTRA NARRATIVA POSSÍVEL PARA AS HEROÍNAS NO CINEMA

Atualizado: Ago 15


* Este post faz parte do ensaio: A CIDADE DAS MULHERES MORTAS: A VIOLÊNCIA REITERADA CONTRA AS MULHERES NA PRODUÇÃO FÍLMICA E SERIADA. Ele será publicado na obra coletiva 15 anos da Lei Maria da Penha: Avanços e Desafios (Coordenadores: Bruna I. Simioni Silva; Larissa Ribeiro Tomazoni e Paulo Silas Filho).


Em 1990, a psicóloga Maureen Murdock publicou The Heroine’s Journey: Woman’s Quest for Wholeness como uma alternativa ao modelo de Jornada do Herói, conceito popularizado por Joseph Campbell - e transformado em "regra" por Cristopher Vogler, lembram? No Homem de Mil Faces, Campbell mostra quais são os elementos que se repetem nos grandes mitos através de um estudo comparativo de dezenas de histórias, nas mais diversas culturas. Vogler reuniu as percepções sobre o livro em um guia, utilizado até hoje na produção de narrativas - para o cinema, a publicidade, etc.


Murdock, no entanto, pensa que os a arquétipos que Campbell dedicou as mulheres não são suficientes, nem honestos. São dois os momentos em que as mulheres são arquétipos na obra de Campbell: no Encontro com a Deusa e A Mulher Como Tentação.



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Ambos são misóginos e não conseguem, obviamente, dar conta da variedade das personagens mulheres. Além disso, a escritora acredita que o modelo dele não aborda as diferentes passagens na jornada de autoconhecimento das mulheres contemporâneas. A autora pensou então, em um modelo que enaltece as narrativas onde prevalecem a experiência feminina de trajetória.


“Tantas mulheres fizeram a jornada do herói, apenas para descobri-la pessoalmente vazia e perigosa para a humanidade. As mulheres imitaram a jornada heróica masculina porque não havia outras imagens para imitar; (2016, p.38)

É importante dizer que na Jornada de Heroína, não delimita espaços para mulheres e homens - ricos e pobres, pretos, brancos e asiáticos e pode ser usada para contar qualquer história. Então, vamos a ela.


A JORNADA DA HEROÍNA


1 - Separação do Feminino


A heroína começa a jornada buscando o reconhecimento e o sucesso em uma cultura patriarcal. Ela rejeita aquilo que se considera como “papéis de gênero” femininos e vai além. Mostra que a heroína entra em atrito com às figuras femininas fortes ao seu redor, e que representam a família, a mãe. Nesse momento, ela vive um tipo de morte espiritual que a faz refletir sobre seu lugar, numa tentativa de recuperar o sagrado feminino. Depois é que ela percebe que o sucesso que conseguiu, não traz o acalento para a mente e para a alma que precisava. Esse é o momento as heroínas deixam para trás a proteção da Mãe. Como quando Diana confronta Hipólita.


2. Identificação com o masculino


O livro é baseado na experiência de mulheres que experimentaram a vida através de uma cultura masculinista. Essa sociedade comumente inferioriza e a desqualifica as mães e os valores da cultura feminina. A partir do momento que o feminino é concebido através de uma série de pressupostos negativos, rejeitamos qualquer qualidade positiva atribuída como feminina.


Mas para florescer nessa sociedade, a heroína passa a se identificar, então, com papéis que são reconhecidos como masculinos, gerenciando as emoções conforme o universo masculino (tóxico, no caso) ensina, adotando traços masculinos. Mulan é um exemplo.



3. O Caminho das Tentativas

A heroína começa a enfrentar problemas, obstáculos e desafios para chegar ao seus objetivos uma vez que passou a vida encorajada a não levar em consideração o que pensa e sente, seja "por amor", "por obrigação"; para que seu sucesso não afronte ninguém. É aqui que ela encontra os afazeres, a laboração que vai ajudá-la a desenvolver o seu caráter. Significativamente, essas provações representam seu avanço no universo exterior, onde se transforma no que sonhou, mas também no mundo interior, onde supera a dependência dos mitos masculinos, a inferioridade feminina, a necessidade de um amor romântico.



4. A Ilusão do Sucesso

Embora ela tenha, após várias provações, conquistado o poder, o reconhecimento, o sucesso e a glória, a heroína ainda, por vezes, dúvida das próprias realizações, temendo que seja uma incompetente, uma fraude.

A heroína vence obstáculos e lutas. Normalmente é nesse estágio que a jornada do herói termina, mas não é o caso na jornada da heroína.


5. Despertar para o vazio espiritual

Não importa quanto sucesso possa ter, a heroína se sente vazia. Ela não sabia que era apenas isso pois acreditava que a vitória significaria algo maior. Ela então, passa a pensar/sentir que, para alcançar o poder, ela tem que abrir mão de ser ela própria. Nesse momento, todo o sucesso que ela teve é questionado e repreendido. Mas é nesse momento também, que a heroína consegue começar a ouvir a sua voz interior, e começa a se questionar sobre as opções que fez ao longo da vida.



6. Iniciação e Descida à Deusa

A heroína enfrenta o pior que há em si mesma. É nesse momento que ela enfrenta tudo aquilo que representa seu fracasso, sua sombra. Ela se afasta de amigos, da família e se retira porque não consegue mais viver a vida pelos termos que lhe foram ensinados, as regras que lhe foram impostas. Ela vai aprender a ser quem ela realmente é para seu próprio contentamento.


Essa passagem pela dor do crescimento, se dá de diversas formas: o abandono do lar; uma separação; uma morte; uma doença; a perda do sentimento de pertencimento, etc.



7. Desejo de se reconectar com o feminino

Após o embate consigo mesma é o momento que ela passa a cultivar conexões entre a mente o espírito e seu corpo em uma busca pela unicidade de si, através de suas reflexões e ideias. Na narrativa é quando vemos a heroína se recolhendo, buscando resgatar a essência do feminino que havia perdido, recuperando habilidades, tributos ou valores atribuídos a pessoas como ela. Depois disso, ela nunca mais será a mesma. Ela vê antigas experiências com um novo olhar. É quando Moana fala com o espírito da avó.


8. Curando o rompimento da mãe/filha

É o momento que a heroína busca se reconectar com raízes que abandonou e reconhece no passado, a força para reconstituir o futuro. É o momento que ela reconsidera o caráter feminino e seus traços e os vê como parte importante da sua força. Como quando Mérida tem que usar as habilidades supostamente femininas que rejeitou para poder salvar a mãe.



9. Curando Aquilo que é Masculino e está Ferido

A heroína, após se reconectar com sua essência feminina compreende as mudanças pelas quais passou. É o momento de fazer as pazes com essa abordagem “masculina” do conflito, e usar essa habilidade, qualquer que seja, para um bem maior. Nesse momento, a heroína se liberta e se equilibra. Como Sarah Connor em Terminator II


E Dani em Terminator: Dark Fate.



10. Integração do masculino e feminino


Agora a heroína está completa e capaz de viver a vida de forma integral. Ela fica em contato com sua natureza única e diversa, se aceitando e se integrando equilibrando o que é considerado masculino e feminino. Nesse momento há o reconhecimento daquele lugar que sempre foi dela, ao qual sempre pertenceu. Ela passa a valorar as coisas pelo que são, dimensionando cada experiência - masculina e feminina - como um aspecto da vida.




Primeiramente, ela tem uma necessidade grande de sufocar seu eu-feminino e fundir-se com o masculino. No entanto, uma vez que tenha feito isso, a heroína percebe que essa não era a resposta. A heroína não pode desistir do que aprendeu ao longo de sua jornada heróica enquanto mulher, e ver os sucessos conquistados com dificuldade como parte da jornada. O foco na integração da interdependência é necessário para que preservemos a saúde e o equilíbrio da vida na terra (MURDOCK, 1990, p.11).


É Ripley, em Aliens, de 1986, defendendo a menina do monstro antagonista.


Existem outras Jornadas da Heroína propostas por escritoras e roteiristas, principalmente, também, porque a de Maureen Murdock não é diretamente aplicável a produção de narrativas.


Outra história possível está em In 45 Master Characters: Mythic Models for Creating Original Characters, de Victoria Lynn Schmidt e The Virgin Promise, de Kate Hudson que você pode acessar pelos links aqui no blog :)


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