• Ma. Viviane Rodrigues

ARQUÉTIPOS, INCONSCIENTE COLETIVO E JUNG NO CINEMA - A GENTE EXPLICA :)

Atualizado: Ago 15

Primeiro, quero dizer que arquétipo é um conceito complexo, com várias nuances e, embora seja denso - e muito interessante - estou aqui, apenas, pinçando e observando aspectos de forma geral, ok? Vale a pena o aprofundamento de Jung para várias áreas do conhecimento.


Como escrevi no ensaio, o conceito de arquétipo foi elaborado por Jung, na Psicologia Analítica, quando produziu a teoria do inconsciente coletivo, que são ideias pré-concebidas, fundamentadas no senso comum, sobre alguma coisa ou pessoa. É como um tipo de herança mental que nos acompanha. Essas sensações que estão sempre conosco são símbolos, são imagens mentais e pensamentos que todos temos e que aparecem de forma instintiva, através dos arquétipos.


Por exemplo, ao vermos a imagem de um cão, nossa resposta automática é pensar em um exemplo de dedicação, pois ele é sempre descrito como nosso melhor amigo. Sob essa perspectiva, o cachorro é, então, um arquétipo de lealdade - bem como, uma cobra pode ser arquétipo de maldade e vilania; o leão, de força, a águia, de liberdade, etc.


Para Jung arquétipos são, então, imagens elementares albergadas em nosso imaginário, que podem possuir características positivas e/ou negativas, que ajudam, então, a explicar a experiência vivida por outras gerações.


São milhares as possibilidades de arquétipos, e fiz aqui, apenas uma seleção de alguns presentes em narrativas fílmicas.


A Mãe


O arquétipo designa todo o comportamento materno e gentil. acolhedor e compreensivo.




A Persona

Mostra um aspecto que queremos exibir de nós mesmos aos outros. Ela/ele vive aquilo que é esperado socialmente dela/dele e dá muito valor ao que os demais pensam dela/dele.


O Governante

Para ele/ela é imperioso o exercício do poder. É aquele gosta de ter controle sobre tudo - pessoas ou coisas. Pode ser nominado de outra forma: líder, chefe/chefa, rei / rainha, etc. Não é necessariamente um perfil tirânico. Pode ser um/uma líder com grandes responsabilidades, como também pode ser um exemplo de autoritarismo.



O Cuidador

Ajudar as pessoas é seu leit motif. Luta contra o egoísmo e a ingratidão. É alguém muito generoso/a e tem muita compaixão pelos seus pares.



O Indivíduo Comum

Aquele personagem que quer se conectar e fazer parte de um grupo porque não gosta de ser diferente ou teme ser deixado/a à própria sorte.



O Amante

O maior medo desse personagem também é não ser amado/a, mas seu maior interesse é se relacionar com as outras pessoas, pois valoriza a intimidade - e a experiência e sua beleza vai além da versão física.



O Tolo

Se é para viver, que seja o agora, com muita positividade, esperança e alegria, prazer, deixando seu destino para ser decidido, também, pela sorte.



O Herói

O herói (heroína?) é acima de tudo, um corajoso. É o personagem que simboliza a força e possui firmeza de espírito para enfrentar uma situação difícil, qualquer que seja ela. Só teme demonstrar a própria vulnerabilidade.


(Lembramos aqui, quando se trata de narrativa fílmica, sobre a polêmica de arquétipos para mulheres e suas jornadas em narrativas fílmicas. A jornada da heroína, de Maurren Murdock confrontou a jornada do herói, popular e canônica, proposta por Joseph Campbell e pelo guia de Christophe Vogler; a escritora e professora Victoria Lynn Schmidt também propôs um outro viés, e A Promessa da Virgem, de Kate Hundson também oferece uma jornada diferente.

O Rebelde

Vive de acordo com suas premissas e a opinião alheia não lhe interessa. Regras servem para outros não se aplicam a esse arquétipo, completamente avesso a autoridade.



O Mágico

Mistérios, ocultismo, visões, a busca pela compreensão da natureza. É um sábio, um curandeiro.


O Inocente

Pureza na alma, procura sempre fazer o que é certo e teme em agir de forma equivocada e - ser punido. Tem muito otimismo e fé.


O Explorador

A busca é sua marca, por conta de um grande desejo de exploração. Carrega um grande enfado pela vida, quando ela se repete. Estar parado é estar preso.


Veja que interessante: a obra fílmica acima - que recebeu quase a nota máxima para muitos críticos de cinema - recebeu o selo R. Isso quer dizer, como vimos no post sobre a MPA , que não recebe muita atenção e espaço porque é proibido de fazer propaganda em todos os veículos e horários - entre outras severas restrições. Isso impede o filme de ser mais (re)conhecido e transformar o sucesso em dinheiro.


A sinopse? Uma avó feminista lésbica indisciplinada leva sua neta em uma viagem para encontrar dinheiro para um aborto.

"Talvez essa seja a primeira comédia sobre um aborto já realizada. Mas a premissa permite o foco subjacente no legado da libertação das mulheres da década de 1960, e como isso foi filtrado até o presente através de gerações de mulheres, da avó, à mãe, à filha. Lily Tomlin segura o filme com uma performance soberba , onde a personagem é tão refrescante - e tão rara - de se ver na tela. Não é uma pobre velhinha, não é uma idosa maluca e rabugenta, mas uma mulher viva, pensante, desbocada, uma mulher empoderada madura cheia de habilidades e desenvoltura, que se recusa a ser comum ou de segunda categoria e insiste em fazer as coisas a sua maneira, sempre original, não importando o custo pessoal. É um filme muito espirituoso, é claro, como Tomlin realmente é na vida real - parece um papel que ela nasceu para desempenhar" (Alexa Dalby, 2017).

Outro exemplo deste arquétipo:


O Sábio

A busca do sábio é pelo (auto)conhecimento e da reflexão. Analisa tudo e teme a alienação e a ignorância.



A Sombra

É aquilo que temos guardado em segredo, trancafiado em largo cadeado, tudo aquilo que não é moralmente aceito.




O Trapaceiro

Costuma quebrar regras, sendo um astuto que busca ver os limites das autoridades e tirar algum proveito disso.

O Criador

Sempre criativo e inovador, carregando uma mente fervilhante e cheia de ideias.



A Morte

É um despertar, uma oportunidade para uma nova aventura. A morte como representação de um fim para um recomeço.


São vários os arquétipos disponíveis, mas a gente fica por aqui. Deixamos uma entrevista de Carl Jung.


Muita coisa para pensar? Pois faça aos poucos :)


* Este post faz parte do ensaio: A CIDADE DAS MULHERES MORTAS: A VIOLÊNCIA REITERADA CONTRA AS MULHERES NA PRODUÇÃO FÍLMICA E SERIADA. Ele será publicado na obra coletiva 15 anos da Lei Maria da Penha: Avanços e Desafios (Coordenadores: Bruna I. Simioni Silva; Larissa Ribeiro Tomazoni e Paulo Silas Filho).


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