• Ma. Viviane Rodrigues

DESPACHOS DE OUTRO LUGAR: SÉRIE É ÓTIMA SURPRESA

Atualizado: 3 de jul.

As personagens de Dispatches from Elsewhere buscam um significado para as próprias vidas. O vazio, a dificuldade de conectar com outras pessoas e a importância dessa conexão são temas que transitam permanentemente na série, exibida agora na Amazon Prime.


A narrativa acontece na Filadélfia, Pensilvânia, e se desenvolve através de quatro pessoas: Janice (Sally Field), uma dona de casa otimista que cuida do marido em coma; Fredwynn (André Benjamin), um cidadão que não consegue manter qualquer relacionamento, por conta de sua paranoia e pelas teorias conspiratórias que brotam continuamente na cabeça dele; Peter ( Jason Segel), um programador, deprimido e só e Simone (Eve Lindley), uma mulher trans, formada em Belas Artes, guia em um museu, que necessita de aceitação.



Imers@s em desafios fantasiosos, partes de um quebra-cabeça, criado por Octavio (Richard E. Grant), o enigmático chefe do Instituto Jejune, as personagens descobrem um mundo mágico, que oferece novas possibilidades. É ele que, na cena de abertura da série - uma tomada estática de Octavio vestido com uma jaqueta xadrez verde e blusa de gola alta preta, sentado em frente a uma parede laranja sem brilho, nos olha por longos 22 segundos - uma eternidade quando se fala em audiovisual - antes de dizer: “E agora que eu tenho sua atenção, vou começar ”


Em um monólogo introdutório, Octavio promete pular a parte habitual dos dramas seriados da apresentação das personagens e ir direto para a história, e assim, nos convida: "Este é Peter. Ele é você se você morasse sozinho. Peter é você se acordasse com o mesmo alarme, "radar", do seu Iphone todos os dias. Peter é você, se você caminhasse para o trabalho (...) Peter é você, se você terminasse o dia onde o começou. Imagine que você é Peter, que tem uma vida sem riscos, uma vida sem verdadeira dor, uma vida sem verdadeiras alegrias. Isso é existir, não viver".


Jason Segel estrutura os primeiros episódios de modo que cada um seja contado a partir do ponto de vista de um dos quatro protagonistas, urgindo por uma empatia que temos perdido contato. Mas é em um dia qualquer, que a rotina de Peter e das outras personagens é quebrada, e ali começa uma ostensiva caçada - quase que dadaísta em muitos momentos - ao tesouro. Os espólios dessas aventuras incluem prazeres simples, como dançar, um delicioso pedaço de torta de frutas vermelhas, um grafite, um pequeno museu. Juntos, os quatro tentarão desvendar as várias facetas desse misterioso jogo e, ao fazerem isso, vão descobrindo a si mesmos - e uns aos outros.



Despachos de Outro Lugar é uma série que pode atrair o espectador com uma produção visualmente interessante, um roteiro diferenciado e atuações extraordinárias, onde há a constante vibração da estranheza e da excentricidade, e isso é o que há de melhor nela. Ao longo dos capítulos muitas vezes relembrei dos conceitos de Greimas (2002) e de Gumbrecht (2006), acerca da importância das rupturas, das fraturas dentro do nosso cotidiano monótono e modorrento, como experiências estéticas.

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Julien Algirdas Greimas, no livro Imperfeição, conceitua a "fratura" do cotidiano, como aquilo que nos tira de nossa passividade e nos provoca alterações sensitivas que nos

orientam à busca por escapatórias onde se manifestem o prazer. Fraturas são a "suspensão do tempo e a petrificação do espaço”. Escapatórias são “uma possibilidade de ir além (do) sentido”. É como quando, em um primeiro momento, há uma suspensão da vida cotidiana, quando acontece o inesperado; quando ocorre o estranhamento, o deslumbramento, que faz com que vejamos para além da banalidade das aparências, para depois, retornarmos (?) ao cotidiano.


Já Hans Ulrich Gumbrech, no artigo "Pequenas crises: experiência estética nos mundos cotidianos", chama de "pequenas crises", aqueles eventos de experiências estéticas que só fazem sentido algum diante de sensações, de objetos que nos são familiares, mas que confrontados, causam o estranhamento. São aqueles deslumbramentos momentâneos. É a interrupção no fluxo da vida comum. Como o autor exemplifica: na ação rotineira e familiar de fazer a barba, de repente, o indivíduo se encara no espelho e estranha o formato de suas orelhas - o seu envelhecimento, etc.


Tais perspectivas ilustram a busca que os produtores ensejam na série pelo reencontro com a alegria genuína, com a veracidade das conexões simples e simpáticas, pela valorização do fortuito.


Despachos de Outro Lugar, com toda a sua singularidade e extravagância convida para o novo, para o desconhecido e para o surpreendente. É entretenimento inteligente, e mais do que isso, uma parábola do nosso tempo. É acima de tudo, uma série sobre a confiança, a honra, o amor, a empatia e de como são ainda, as/os humanas/humanos que podem transformar para melhor, a vida de suas/seus pares.


Na Amazon Prime.





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