• Ma. Viviane Rodrigues

HACKS: MUITO ALÉM DO RISO FÁCIL PROVOCADO PELAS DIFERENÇAS ENTRE GERAÇÕES

Pode-se pensar Hacks quase como um drama que questiona o papel da comédia em um planeta adoentado, cheio de gente com problemas mentais. Claro que explorar aquilo que é engraçado na dor de existir não é novidade, mas é a vez dos millennials observarem questões como o fracasso, a aversão a si próprio e a ideação suicida - na era do algoritmo - e Hacks presta sua contribuição de forma exuberante.


Jean Smart, sempre maravilhosa, é Deborah Vance, uma veterana da comédia stand-up que agora vive em Las Vegas e está prestes a fazer seu show de número 2500 no cassino Palmetto, além de lucrar com um canal de compras, eventos diurnos pagos, e sempre seguida por um - cada vez menor, grupo de fãs. Com uma personalidade de diva, ela é egoísta, controladora e melindrosa – mas conquistou cada momento de seu sucesso com trabalho duro em um mundo de homens - sexistas. Há paralelos claros da série com a vida de Joan Rivers, estrela do stand up americanos por décadas (o glamour, a devoção pelos cães, o luxo , a linha de produtos no canal de vendas QVC).



O contraponto de Vance é Ava, interpreta por Hannah Einbinder, uma millennial, cancelada pelas redes sociais após uma piada, exatamente quando estava em ascensão e que se vê obrigada pelo agente a trabalhar com Debora para pagar a casa recém-adquirida e não voltar a morar com os pais.


A comédia se encaixa em um clichê muito usado em filmes e séries, the odd couple. Nele um par de pessoas problemáticas pode funcionar muito bem tanto para a comédia quanto para o drama, pois a razão vêm do conflito, do atrito dessas duas pessoas - que deve ser mediada por uma/um boa/bom roteirista. Em Hacks, embora se contabilizem as diferenças - de classe, riqueza e personalidade - o recorte também é geracional: a boomer Vance está perdendo seu lugar no Palmetto para artistas mais jovens e descolados. Ela precisa atingir outros públicos e para isso precisa do humor contemporâneo de Ava. Mas não antes de muitas rusgas e encrencas.



Em um dos episódios, as protagonistas estão conversando ao telefone tarde da noite. Ava de seu quarto de hotel e Deborah de sua mansão. Ambas estão assistindo Law & Order: Criminal Intent, de repente Ava reflete: “Eu acho que eu poderia interpretar um cadáver". "Bem, você certamente tem a cor de pele para isso", responde Deborah em resposta. Elas riem. Nessa relação, as provocações são uma forma de ternura e podem propiciar boas risadas também.


Em torno do par principal orbita um grupo sólido de performances de apoio – o consigliere de Vance, Marcus (Carl Clemons-Hopkins), que não vive a própria vida para viver a de Debora, e luta para definir sua própria existência como homem negro gay trabalhando para uma mulher branca e milionária. Já a filha problemática DJ (Kaitlin Olson) espera infinitamente que sua mãe invista em seu mais recente esquema de enriquecimento rápido enquanto se envolve com homens escolhidos a dedo para desafiar a matriarca. Há também Megan Stalter como a assistente desmiolada do agente das duas comediantes, Jimmy, interpretado por Paul W. Downs, Kayla – que provoca alguns mal-entendidos hilários.


Importante frisar que a série não pretende ser uma fábrica de piadas. Ela possui um tom melancólico, às vezes é um psicodrama sombrio, às vezes uma sátira animada da indústria do entretenimento, às vezes um estudo sobre as diferenças geracionais, em outros momentos um docudrama sobre a misoginia e o assédio que enfrentaram/enfrentam as mulheres que trabalham no universo do entretenimento artístico. Enfim, com um estilo mordaz, sutil e doce, a série tem grandes chances de fazer você maratonar.

Criada por Lucia Aniello, de Broad City, Paul W. Downs e Jen Statsky, foi produzida por Michael Schur, das ótimas Parks and Recreation, The Good Place e várias outras séries o tornaram um favorito dos fãs de comédia de TV. Hacks ganhou dois Golden Globes 2022 - melhor atriz de comédia e melhor comédia - e está agora no HBO MAX - e já foi renovada para uma segunda temporada.


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