• Ma. Viviane Rodrigues

MITOS QUE REGEM A COMPREENSÃO HUMANA, SEGUNDO FÉRRES

Atualizado: Jun 29

A partir do livro super-legal de Joan Férres "TELEVISÃO SUBLIMINAR".


Autor de inúmeras livros, o espanhol Joan Ferrés é pedagogo e especialista em Educação em Comunicação Audiovisual e professor da Universidade Pompeo Fabra (UPF) em Barcelona.


Meus alunos e minhas alunas de Comunicação sempre acabaram lendo este autor, que provoca várias reflexões sobre como pensamos e acreditamos. No livro Televisão Subliminar, de 1998, ele pensa sobre os efeitos socializadores que a televisão possui. Para entendê-la é preciso pensar como agem os mecanismos da mente e do inconsciente, como a ideia de lógica e racionalidade possuem um papel supervalorizado e como, na verdade, são as emoções que dominam o inconsciente e mediam as comunicações de forma despercebida. Vou ilustrar apenas os mitos refletidos pelo autor.



O MITO DA LIBERDADE HUMANA

Para ser livre não basta que não soframos nenhum tipo de coação física.

É preciso que sejamos livre e capazes de optar. A liberdade é nossa capacidade de validarmos crenças e termos comportamentos autônomos, independentes. Estes são fundamentados em convicções e menos em imitações, na reflexão, no doutrinamento , na emoção, com consciência e autocrítica.


Não se pode falar em liberdade quando se permite fazer o que se deseja, mas se leva a desejar o que interessa que se deseje. Sam Keen (1994, p. 132), “toda cultura é uma conspiração para convencer seus membros para que adequem seus desejos ao que se considera correta e bom".

O MITO DA RACIONALIDADE HUMANA

A ingênua e quase infantil convicção de que somo muito mais razão que emoção, que existe uma primazia da razão sobre o sentimento. No entanto, atuamos todas e todos movidos por impulsos inconscientes, nada racionais. O mito existe porque não leva em consideração a dualidade de nosso caráter e todas as nossas contradições, que são consequência dos conflitos entre a emoção e a razão, entre o desejo e o pensamento.


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Conspiração das emoções


São muitas as pesquisas que demonstram que as emoções burlam com facilidade até nossa racionalidade. Exemplo do livro: Pessoas bonitas e atraentes tem mais chances de serem perdoadas ou terem penas mais leve em casos criminais.


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Os processos da racionalização

Nossa consciência não pode suportar uma excessiva falta de lógica. Por isso, tantos programas policiais dissecam serial killers: precisamos saber a razão. O autor diz que mesmo quando as decisões humanas são tomadas com base na emoção, a necessidade de sermos racionais nos leva, inconscientemente, a buscar por razões lógicas, racionalizadas e a indicá-las como motivo da escolha. É um mecanismo de defesa.



O MITO DA CONSCIÊNCIA HUMANA

Vivemos na ingênua convicção de que controlamos conscientemente nossas decisões e crenças. A consciência é uma capacidade humana, mas com mais frequência do que imaginamos, agimos movido por estímulos ou impulsos inconscientes.



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O mito da percepção objetiva

As percepções humanas são menos objetivas, racionais e conscientes do que se imagina. Perceber é antes de tudo selecionar e interpretar. O torá já diz: "não vemos as coisas como são, vemos as coisas como somos". Nunca podemos esquecer que a percepção da realidade está condicionada a cultura e as nossas emoções.


Na vida cotidiana, tende-se a considerar que o que alguém percebe é necessariamente autêntico (“vi com meus próprios olhos”). Esquecemos que fatores cognitivos exercem, uma influência determinante nas informações que chegam as áreas visuais. É a mente que realiza a operação de estruturar as formas, conferindo-lhes significação. Para compreender o quanto pode ser "impreciso", inclusive fisiologicamente como vemos, temos que pensar nas estruturas de nossos olhos, do nosso cérebro.



O vídeo acima pode parecer, entre outras coisas, incoerente e meio bizarro, mas ele mostra como nosso grau de atenção é baixo e imperfeito ao ponto que pode ser manipulado.


Os psicólogos Daniel J. Simons e Christopher F. Chabris, da Universidade de Illinois, queriam mostrar, exatamente, a seletividade de nossa atenção. Eles realizaram testes e um deles era um vídeo e consistia de seis pessoas divididas em duas equipes (uma branca e uma preta), trocando passes com duas bolas de basquete e para cada uma havia condições experimentais. Os participantes deveriam contar os passes que uma das equipes realizava. Os resultados obtidos foram que de 192 participantes, 54% perceberam o evento inesperado e 46% falharam em notar o evento. Ou seja, quase metade dos participantes não perceberam um evento saliente e inesperado enquanto estavam envolvidos em uma tarefa de monitoramento.

Uma das conclusões dos autores é que objetos podem passar pela extensão espacial do nosso foco de atenção e mesmo assim não serem “vistos” se eles não forem especificamente focados (SIMONS; CHABRIS, 1999).



Bibliografia:

FÉRRES, Joan. Televisão subliminar: socializando através de comunicações despercebidas. Porto Alegre: Artmed, 1998.


Aqui, uma entrevista com Joan Ferrés que foi dada a minha colega de mestrado, Laura Seligman.


* Este post faz parte do ensaio: A CIDADE DAS MULHERES MORTAS: A VIOLÊNCIA REITERADA CONTRA AS MULHERES NA PRODUÇÃO FÍLMICA E SERIADA. Ele será publicado na obra coletiva 15 anos da Lei Maria da Penha: Avanços e Desafios (Coordenadores: Bruna I. Simioni Silva; Larissa Ribeiro Tomazoni e Paulo Silas Filho).


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