"AZUL É A COR MAIS QUENTE": CORPOS EM DEVIR

October 1, 2016

Ma. Viviane Rodrigues

 

 

Muito mais que sexo: o encantamento, a paixão e a desilusão amorosa de cada dia, retratada com poesia.

 

I

 

Alguns filmes me fazem pensar sobre o uso da verossimilhança nas obras cinematográficas. A "realidade" do dia-a-dia. Falo de filmes como os brasileiros “A Casa de Alice”, de Chico Teixeira e “O Som ao Redor”, de Kleber Mendonça Filho; “Medianeiras”, do argentino Gustavo Taretto; “Frances Ha”, de Noah Baumbach, o dramático e heart-breaking "Amour", de Michael Haneke, e o pungente e belo, “Azul é a Cor Mais Quente”, de Abdellatif Kechiche (entre outros).

 

Neles, as personagens e vivências transcendem  os limites e a pressa do cinema de entretenimento. São filmes mais perturbadores porque simplesmente silenciam, gargalham, traduzem a angustia, a surpresa, a dor; coisas que partilhamos enquanto humanos submersos no cotidiano: viver.

 

Se "A Casa de Alice" mostra honestamente o cotidiano de  mentiras de uma família e "O Som ao Redor" ilustra o vai-e-vem de pessoas que tem bastante o que esconder  na rua classe média do Recife ;  “Frances Ha” conta a história da estudante de dança, “gente boa”, que migra de um apartamento a outro que caiba nas finanças enquanto arruma tempo para amadurecer, e “Medianeiras” nos mostra os encontros e desencontros de dois jovens adultos na metrópole Buenos Aires,  “A Vida de Adèle – Capítulos 1 e 2”, título original do filme do diretor tunisiano, baseado em uma HQ da francesa Julie Maroh, traduz a vida de uma menina. Ou melhor, de uma menina-moça que, como tantas outras ( no caso, doce, singela, ela participa de manifestações estudantis, gosta de ler e quer ser professora de maternal)., vive a dureza dos conflitos e as descobertas no próprio corpo, enquanto ainda se apaixona por uma estudante de Belas Artes de cabelo azul.

 

É um filme sobre a descoberta da linguagem do corpo por uma garota que vive a experiência do amor e do sexo e se o é com outra mulher, é para traduzir os “novos conflitos" contemporâneos. Um  coming of age - tipo de obra fílmica que mostra esta a transição da adolescência para a vida adulta  -  onde a história a ser contata é de uma mulher, coisa rara também nessa categoria (ainda).

 

Amor,  dor e amadurecimento são experiências universais e não era o sexo lésbico que deveria ter chamado a atenção. (Mas o corpo nu e envolvido na paixão incomoda). Adèle não se reconhece como lésbica, como hetero, nem como bi. Ela, como tant@s, se reconhece amando e/ou desejando, embora, seja sim, importante reconhecer a relação homossexual para fins de representação fílmica. Mas, a gente  sabe, a vida vai além.

 

Este é, então, um filme que incomoda e que confidencia, mesmo se @ espectador@ não possui ouvidos de entender,... Como foi o caso das minhas vizinhas de poltrona no cinema, quando, lembro, fui assisti-lo.

 

II

 

Ir ao cinema também é dividir um confessionário. Lá, no escurinho, as pessoas reagem à imagem e ao som, e desnudas, oferecem um pouco do que são - do que acreditam - nos sussurros e nas respostas espontâneas. Muitas vezes fui  mais de uma vez ver um filme apenas para poder presenciar a reação no rosto da cidadã/do cidadão, frente a algumas imagens. :) É revelador.

 

 

Pois bem,  enquanto Adèle sofria as agruras de estar só, tentando elaborar os frissons causados pela primeira vez, pelo namorado, pelos corpos de outras garotas, mil conflitos;  eu lembro, a vizinha da minha poltrona, de número 09, na fileira H, só conseguiu reunir as silabas em uma frase de comiseração quando a protagonista “deu um fora” no gatinho, o namorado de barba ruiva.

 

Foi em coro: “_Tadinho!”.  Todas as minhas vizinhas do lado esquerdo a lamentar o destino do garoto. Penso: como foram bem adestradas e umas poucas lágrimas ainda tem poder sobre estas pobres e desavisadas gazelas. Penso: como podem ser incapazes de se reconhecerem na busca, nos conflitos de outra mulher tão jovem quanto elas próprias?

 

 

III

 

Mas as coisas iriam piorar para o trio... Para escândalo das "crianças", o filme ainda trazia corpos nus. E o corpo nu incomoda. E muito. Ainda mais quando são corpos enamorados. Muito desejosos. Autônomos. E mais grave: femininos.

 

A passional (porém metódica)  fotografia do filme quer ter um caso de amor com os corpos das atrizes Adèle Exarchopoulos (Adèle) e Léa Seydoux (Emma) e a escolha de uma planificação que valorizasse o rosto e os sentimentos expressos das personagens, apoiou-se no talento das intérpretes. A potencialização do sensível pelo primeiro plano me lembrou “La Passion de Jeanne d'Arc”, de Carl Dreyer, de 1928. A fotografia intensificou todo aquele apelo e obrigou as atrizes a um tour de force que tem efeito grave sobre @ observador@.

 

Já as cenas de sexo comentadas a exaustão, são na verdade, um intrincado e dedicado trabalho técnico (não primoroso) e que querem se assemelhar, me parece, as obras de Schiele, pintor expressionista austríaco que é, inclusive, citado no filme. Imagens sobre o cio amoroso e sobre o corpo feminino. Olhar masculino gerou perspectiva machista? Se tiver interesse, meu  artigo sobre o filme responde com mais propriedade, mas achei que não.*

 

É bom dizer que “Azul é a Cor Mais Quente” também não apresenta pessoas feitas daquela massinha Hollywoodiana (embora as atrizes sejam brancas, magras, ocidentalizadas, ou seja, seguem um paradigma corporal) que resulta em gente glamourosa, (e/ou) perfeitamente desarrumada, (e/ou) com glitter saindo pelos ouvidos.

 

Os corpos deste filme são sublimes porque são mais naturais, verdadeiros, menos higienizados... E... Se tudo parece "gostoso" é porque o casal possui uma química inegável, aproveitada, inclusive, em dezenas de editoriais de moda, não somente pelo diretor.

 

 IV

 

Mas nada disso interessava a vizinha da poltrona nove. A nudez e o sexo pintavam a tela, o desejo queimava aqueles corpos, a paixão ali incandescente... Mas sempre que os corpos se dispunham nus, a tal moça sacava o celular da bolsa e se atracava nele, fingindo um desinteresse mais que nervoso.

Eu: ria.

 

V

 

Li muitas críticas que acreditaram que o filme tem cenas de sexo “muito cruas”, produzidas com “mão pesada” e que seriam fruto de um approach muito masculino ou sexista, como disseram. Completo nonsense. Lá na tela não há “crueza”. Vejo desejo e me pergunto: será que as pessoas esqueceram o que é isto?

 

Não há excesso. Há vontade. Não há olhar masculino. Há o olhar de um realizador e de uma equipe muito que o ajudou a compor-parir uma obra ...E estou longe de ser inocente com 20 anos de leituras feministas-queer na cabeça...

 

Enfim, quanto às críticas, o que vejo é muita falta de conhecimento na popa e hipocrisia e pudor na proa... Em especial dos segmentos conservadores que vomitam cadáveres e violentam corpos todos os dias no colo do expectador/ espectador/leitor/viajante...É isto se refletiu no comportamento das minhas vizinhas que se envergonham de corpos autônomos, livres, na festa feliz do amor, habituadas que estão a corpos objetos, dejetos ambulantes nas mídias que acessam.

 

Mas havia mais ainda... E quando os corpos nus voltaram a surpreendê-las – porque a comoção não era apenas da minha vizinha, mas daquela tríade, elas mandaram um “_De novo!”, que me fez pensar na qualidade da vida sexual das "mulheres-massa".

 

VI

 

A moça de “rabo de cavalo” do meu lado estava inconformada e não conseguia entender porque aquilo estava sendo projetado. Quando novas lágrimas das personagens mancharam a tela, seja pelo passar dos anos, pela fúria do amor não correspondido, pela saudade, pela parte "nossa" que naufragou, ali, verossímil; a vida se (re)fazendo, aquelas cidadãs não suportaram mais e zurraram: “_Eu vim aqui para ver ela chorando por três horas?”

 

VII

 

Este não é um filme para qualquer um, como costumo dizer em sala de aula, para @s querid@s alun@s. Ele demanda um preparo e vai entrar na minha listinha (que inclusive já postei aqui) acompanhado por aquele “E” em vermelho, de “experimente”. Isto quer dizer que o filme foge ao que uma maioria, acostumada à dose semanal de entretenimento, acredita que é cinema. Não que entretenimento não seja cinema, mas existem outros tantos (melhores!).

 

“Azul é a Cor Mais Quente” possui uma narrativa, uma estética, uma produção, uma direção, uma pós-produção que suscita atenção e reflexão porque é uma "partilha do sensível", como na perspectiva de Jacques Rancière. É um filme que precisa de você inteiro porque nele você não é um apêndice.

 

 

 

VIII

 

O diretor Abdellatif Kechiche pensou e desistiu de fazer “A Vida de Adèle - Capítulos 3 e 4” após uma briga em Cannes com as atrizes. Quem sabe não seria Adèle, uma outra "Emmanuelle" possível: multi-identitária, dona de um corpo autônomo e onde não há estranhamento, mais um pacto com o possível na vida moderna (e líquida, de Zygmunt Bauman).
 

IX

 

As moças do meu lado me atropelaram na cadeira para sair...

Assim que o filme insinuou um final. rs

 

 

Se alguém se interessar: aqui, um pequeno artigo  científico que escrevi a partir de minha pesquisa para a dissertação, sobre o filme e que é bem popular  > https://unibrasil.academia.edu/VivianeRodrigues

 

Se tiver interesse no assunto acompanhe o blog , em 2017 vou publicizar a minha dissertação que pensa a fotografia fílmica  do orgasmo como experiência social e estética.

 

 

 

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