O QUE PENSA O CIDADÃO QUE CHAMA SEBASTIÃO SALGADO DE "VELHO SENIL"?

November 1, 2016

Ma. Viviane Rodrigues

É clichê. Mas sempre me surpreende. A web deu voz a gente despreparada em vários níveis e ninguém é poupado da grosseria que emana das redes sociais, nem Sebastião Salgado, imagine.

 

Salgado é um fotógrafo de superlativos. Um dos mais importantes e atuantes do planeta, já expôs no mundo inteiro e viveu a mudança do princípio analógico da fotografia, para o digital em toda a sua intensidade, extensão (e (falta de) compromentimento).

 

Prêmios não lhe faltam: o World Press Photo, um da Unesco, da Overseas Press, o Alfred Eisenstaedt Award pela Magazine Photography; foi medalha de prata no Art Directors e é membro honorário da Academia Americana de Artes e Ciência, além de ter recebido outras honrarias.

 

Livros de fotodocumentação são vários: “Trabalhadores” (1996); “Terra” (1997; “Serra Pelada” (1999); “Outras Américas” (1999) “Retratos de Crianças do Êxodo” (2000); “Êxodos” (2000), “O Berço da Desigualdade” (2005), “Genênis” (2013), além de uma obra, “Da minha Terra à Terra”, de 2013, onde, como narrador, traduz sua jornada pessoal, fala sobre as raízes políticas, éticas e existenciais do engajamento no trabalho como fotógrafo,  além de ser protagonista de um documentário dirigido por Wim Wenders, “Sal da Terra”, de 2014.

 

 

Sebastião foi fotojornalista da Magnum, agência mítica, liderada por Robert Capa e por Cartier-Bresson, e fotografou, por exemplo, a Revolução dos Cravos em 1974, movimento que derrubou o regime ditatorial salazarista em Portugal que resistia desde 1926. Foi também um dos três fotógrafos a registrar o atentado contra Ronald Reagan, presidente americano, em 1981, entre vários outros eventos históricos em que se fez presente.

 

 Ele também possui uma ONG, o Instituto Terra, que promove educação ambiental e trabalha com plantio de mudas e restauração ecossistêmica.

 

Há três anos, Salgado fotodocumenta tribos na Amazônia, onde recentemente, em um acidente rompeu o menisco. Terminando o tratamento, voltará a campo.

 

Este cidadão do mundo foi chamado por um pirralho qualquer, de 20 e poucos anos, com pouca experiência de vida, nenhuma que me parece, vai além da sua cidade e do seu sofá, pelo que espelha nas redes sociais,  de “velho senil” no Facebook (eu deveria ter printado). Isso porque, na opinião do profissional “a fotografia vai acabar em 20, 30 anos”.

 

O fotógrafo não possui certas habilidades para lidar com o universo digital,  que ele não esconde de ninguém, aliás. Vejo as mudanças "físicas" desta relação nas imagens. Há um "antes e  depois" evidente da fotografia digital no trabalho dele, coisa sobre a qual escrevi em um artigo científico, em 2013.  Se você tiver interesse em entender, pode dar uma olhada. Obviamente, isso não interfere na grandiosidade do trabalho que realizou e realiza.

 

As redes sociais, como disse Umberto Eco - posicionando-se de forma menos festiva do que quando escreveu “Apocalíptico e Integrados”, livro de 1964, e em diversas entrevistas já no século XXI, sobre a relação das pessoas com as mídias de massa - deram voz a uma horda de idiotas.

 

Deram voz a milhares/milhões de pessoas que, partindo das poucas ilações que fazem sobre quase tudo, aliando-se a falta de vontade por um repertório mais profundo (que está a disposição também na rede) desrespeitam, sem a menor vergonha, a  história de vida de gente como Salgado.

 

Falta estudo e claro, vocação. Para qualquer coisa.

 

É o estudo, o bom senso e a humildade que fazem de qualquer pessoa, alguém diferente do cidadão mediano,  gente pseudo-profissional, que não sabe se expressar e se limita em saber. É o estudo, o bom senso e a humildade que te aproximam de gente talentosa e humana, que vai compartilhar experiências e que o faz com gentileza.

 

Estudar e se envolver. Ter empatia. Ter interesse. Respeitar.

 

E não dá para esquecer também: envelhecer faz parte. Salgado tem 72 anos. Um dia também teve 20. As diferenças estão nas experiências que ele se proporcionou, acumulou e traduziu ao longo destes 52 anos de fotografia.

 

E o que pensa o cidadão que chama Sebastião de senil? Não sei -nem quero saber porque deve fazê-lo muito pouco - mas com certeza, não tem a menor ideia do que é trajetória, humildade e respeito.

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