QUANDO VOCÊ NÃO CHEGA A TEMPO DE DAR O ÚLTIMO ABRAÇO

September 3, 2017

Ma. Viviane Rodrigues

Você sempre acha que pode deixar para depois. Ou se despede, mas anseia por mais uma chance.

 

Quando você mora longe ou viaja muito, talvez um dia, você não chegue a tempo de dar aquele último aconchego ou aquele carinho especial. Às vezes você se atrasa muito, às vezes: pouco... Não importa. El@ se foi. Por isso é tão importante expressar o amor e o bem querer enquanto você pode, enquanto @ outr@ vive.

 

Em um único final de semana minha família perdeu dois membros. A Cindy, um bull terrier enorme e forte, doce como Pollyanna, a personagem de Eleanor H. Porter, e dois dias depois foi Frida, uma vira-lata super-faceira e esperta.

 

Cindy, de 12 anos, havia passado um verão muito difícil – dores, dermatite e cansaço - e a culpa, em grande parte, é dos humanos. Em 1860, James Hinks, em  Birmingham, na Inglaterra, resolveu que criaria uma nova raça a partir de cruzamentos entre vários cães buldogues e terriers ingleses. Queria um cão forte com uma focinho diferenciado.

 

Os cruzamentos resultaram em graves alterações que fazem os cães terem anomalias ósseas graves (de patas, de cauda, etc.), alguns tipos de câncer, dores nas coxas e comprometimento dos movimentos, além de surdez progressiva, hérnias, e uma compulsão louca por correr atrás da cauda até a exaustão, considerado um transtorno obsessivo compulsivo do animal. Sim, tudo isso é verdade.

 

A pior doença para a nossa Cindy, que chegou já quase adulta a nossa casa, no entanto, foi uma das várias patologias de pele que a raça pode desenvolver - e que muitos sites sobre pets, de lojas ou até de organizações, omitem ou atenuam substancialmente.

 

A raça – coisa inventada pelos humanos, porque senão os cães seriam todos mestiços (e muito mais saudáveis!) – está predisposta a inúmeras dermatites, entre elas, a sarna demodécica ou sarna negra. Ela é causada por um ácaro e não é contagiosa, embora seja terrível e quase incurável.

 

Os bull terriers tem especial predisposição genética a ela, que é herdada dos pais, principalmente se tiverem a pelagem toda branca.

 

 Foto: http://giroveterinario.blogspot.com.br/2013/01/sarna-demodecica-em-caes.html

 

A Cindy nunca chegou a ficar como os cães das imagens porque minha mãe, dona Glória, cuidava dela com muita dedicação, e ela estava sempre medicada (o que, claro, é outro problema).

 

Outra dermatite severa e que pode ser também letal é a acrodermatite que se apresenta nos filhotes e causa o ressecamento da pele e lesões em várias partes do corpo.

 Foto: https://www.studyblue.com/notes/note/n/dermatology/deck/5802689

 

Claro, só descobrimos tudo isso quando a Cindy apresentou os sintomas da sarna.

 

Dona Glorinha tentou TODO o tipo de tratamento em vári@s veterinári@s: alopático, homeopático, nacional e importado. Nada curava, apenas aliviava. Com a doença (e os tratamentos), o sistema imunológico dos cães fica comprometido por conta dos antibióticos a longo prazo.

 

Então perceba, ou a gente deixava ela no sofrimento terrível da coceira ou, por conta dos remédios, diminuiríamos a estimativa de vida da nossa garota amada.

 

Minha mãe sofreu junto todos estes anos. Elas tinham compromissos cotidianos: hora dos remédios; da comida; de ir para o sol; de sair do sol,  do banho quando o calor apertava; do agrado; da companhia na porta da cozinha.

 

  

Então, quando a Cindy morreu no gramado de casa, quase subitamente, continuou sendo um choque, mas havia a espontaneidade da morte natural e com a compaixão que a rapidez traz ao momento (já perdemos amig@s após longos períodos de sofrimento). No entanto, se soube, posteriormente, que ela foi assassinada: foi envenenada.

 

 A história da Frida é mais uma de abandono e acolhimento. Ela e o Crespo – o irmão - foram deixados em uma casa junto à praia. Meu irmão, Allan, trouxe-os para casa e minha irmã, Jasmine, @s adotou. Ela tinha apenas seis meses e muita energia e simpatia para dar. Matreira, fingia que fazia o que @s outr@s queriam, mas na verdade, eram @s human@s que estavam a seu dispor.

 

Muito amável e brincalhona, sabia ser alfa quando precisava e, talvez, exatamente essa característica a tenha levado a morte. Tudo, claro, são conjunturas, mas o veterinário que a atendeu,  disse que a dose de veneno foi enorme. Como Frida costumava comer por ela e pelo irmão e chegava a tirar a comida da boca dele, acreditamos que foi isso que a matou. A mestiça não resistiu. Os danos foram extensos e profundos.

 

Mas que danos?

 

O QUE ACONTECE QUANDO ALGUÉM ENVENENA UM CÃO

 

Eu vou detalhar brevemente porque as pessoas tem que se responsabilizar pelo mal que fazem, pela dor que causam.

 

Eu imagino a vontade de matar desta pessoa e todas as razões canhestras.El/ela matutou. Ele/ela maturou. Depois saiu em busca de um veneno ilegal, sem regulamentação da Anvisa ou qualquer outro órgão federal. Ele/ela teve que procurar. Achou e comprou. Descobri que muitos donos de agropecuárias vendem o produto, mas deixam-no fora da loja, para não serem enquadrados pela fiscalização.

 

Este indivíduo então vai para casa e entre a cerveja ou o café da tarde, mistura uma porção generosa de veneno a um alimento irresistível a sua vítima. Depois espera a noite cair - porque el@ conhece a família e, segundo as regras do bom convívio entre vizinh@s, se deve matar sem ser vist@.

 

Assim, discretamente, joga no quintal alheio, o “presente” e se vai. Volta para a TV, para o trabalho; vai à missa, ao culto; ao jogo de futebol.(O quanto nisto tudo há de desumanidade?).

 

Imediatamente após comer o agrado assassino, Frida começou a atirar-se contra a porta de vidro da sala, em desespero, buscando ajuda.  Entrou, já urinando e defecando pela casa, não latindo, mas urrando de dor. Não conseguia ser contida, desarvorada, ao redor da casa, se jogando contra as paredes. Corria. Se jogava. Corria. Colidia com o muro. Com a parede lateral, com a parede da casa vizinha. Corria de forma tão furiosa, que quando parou e conseguiram contê-la, as patas estavam sangrando, também claro, por conta do petisco assassino.  Os olhos então se tornaram fixos, enormes, e alteravam profundamente a feição mansa e sossegada que ela possuía.

 

Meu irmão, Allan e minha cunhada, Luíza vieram às pressas, já encaminhando o atendimento com o veterinário por telefone, que também se colocou a caminho da clínica. No colo de minha irmã, Frida silenciou e a língua dela afrouxou-se na boca: pendia sem forças. Havia apenas um sopro de vida nela que se foi, logo depois de ser atendida e medicada.

 

Triste é saber que o “chumbinho”, um raticida, granulado e cinza, que tem como substância principal de ação, o aldicarb - mas pode conter vários tipos de inseticidas para potencializar a ação – é muito-muito popular entre os sociopatas nacionais. 

 

Os efeitos do veneno dependem da quantidade consumida pelo animal. Em dose grande pode causar morte quase súbita. Se não morre imediatamente, o cão - ou o gato - baba, vomita, tem convulsões, tremores, hemorragias, grave falta de ar, entre outras manifestações horrorosas da morte por este tipo de envenenamento.

 

Claro que depois do acontecido com a Frida, as elucubrações sobre a morte da Cindy ganharam outras dimensões, não vistas anteriormente (ela vomitou antes de dar o último suspiro, além do enrijecimento pós-morte) que indicou, igualmente, a morte por envenenamento, segundo dois veterinários.

 

 

 Quando um indivíduo age com tamanha crueldade, não tortura somente o bicho, mas toda a família. Um grupo de pessoas. Causa dor que traumatiza.  Minha mãe, desconsolada não acredita que depois de 12 anos de tanta dignidade, delicadeza, dedicação e amor, a Cindy tenha morrido pelas mãos de um ser humano tão odioso. Minha irmã ficou muito abalada. O Crespo, o outro filhote adotado em conjunto com Frida,  ficou completamente desorientado. Ela era a referência dele, mediadora das brincadeiras, organizadora do espaço, uma líder aos olhos do jovem cão.

 

Imagine-se, então, vivendo isso. Duas amigas do peito: mortas em três dias.

 

É preciso que - em uma sociedade que fertiliza (ou seria mesmo estruma) personalidades vaidosas e superficiais; que dá visibilidade a ações repetitivas, limitadas, belicosas e brutais; donas de uma ética muito própria e distorcida, que origina gente sem remorso, sem compaixão, desrespeitosa, que não sabe o que é solidariedade e empatia – sejamos menos (muito menos) complacentes com qualquer ato desumano e de ódio.
 

Então, eu tenho que dizer que cheguei tarde. Que não pude dar-lhes um último abraço. Queria poder vê-las uma vez mais.

 

A Cindy me ensinou tanto-tanto sobre delicadeza e força; sobre amor e lealdade; sobre gentileza; sobre tolerância e liderança. Sobre inocência. Queria ter continuado a retribuir toda esta dedicação. Ela era uma referência – para todos nós - de segurança e cuidado.

 

 A Frida... Ah, a Frida era ainda um bebê, só carinho e docilidade, aprendendo a fazer parte da matilha, já zelando pela minha irmã, divertindo @s amig@s... A gente ainda estava se conhecendo. Eu ainda estava aprendendo sobre a personalidade dela.

 

Dona Glorinha que mora há 30 anos na mesma rua e se dá bem com tod@s @s vizinh@s, com o envenenamento, jogou um véu grise invisível sobre estas relações. Embora ela tenha certeza sobre o caráter de alguns, a mera desconfiança sobre outr@s, enfraquece os laços humanos que nos unem (ou isso não existe?)

 

 

 Então, cheguei. E cheguei tarde.

 

O portão agora vazio delas e sem festa, fez meu coração afundar no peito. Entreguei meu abraço a minha mãe e irmã e não há o que se dizer de colorido sobre um encontro em que você vai traduzir a dor e detalhar uma ação tão tosca e violenta.

 

Se você acha que isso é exagero meu,  é drama, tudo bem... De boa. Salve as duas frases e o primeiro parágrafo deste texto. Visualize @ namorad@, a mãe, o pai, @ amig@, ao invés da Cindy e da Frida no resto do relato. Pronto #ficaadica.

 

Mas, pensando bem... Eu acho que não cheguei tarde... Quem chegou muito antes, muito mais cedo, foi a maldade humana.

 

PS:O post não tem fotos da Frida porque não tenho aqui, no PC. Assim que conseguir atualizo o post.)

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